Por UOL

O controlador do grupo cervejeiro Petrópolis, Walter Faria, 64, é alvo de mandado de prisão preventiva (sem prazo) dentro da 62ª fase da Operação Lava Jato, deflagrada hoje e que apura o envolvimento de executivos do grupo em lavagem de dinheiro que teria sido desviado de contratos públicos, especialmente da Petrobras, pela Odebrecht.

Segundo o MPF (Ministério Público Federal) do Paraná, até por volta das 10h30 Faria ainda não havia sido preso. Ele teria deixado seu imóvel antes da chegada dos policiais federais. Outros cinco mandados de prisão temporária (por cinco dias) contra executivos que estariam envolvidos no esquema foram expedidos, dos quais três foram cumpridos até o meio da manhã.

Segundo as investigações, a Odebrecht admitiu em delação premiada que repassava dinheiro ao grupo Petrópolis no exterior, que, por sua vez, direcionava valores em espécie para campanhas políticas no Brasil.

O MPF afirma que, em uma conta mantida no banco Antigua Overseas, em Antigua e Barbuda, no nome da offshore Legacy International Inc., Walter Faria recebeu US$ 88,4 milhões da Odebrecht de março de 2007 a outubro de 2009.

Já entre agosto de 2011 e outubro de 2014, duas contas mantidas pelo executivo no EFG Bank na Suíça, em nome das offshores Sur trade Corporation S/A e Somert S/A Montevideo, teriam recebido da Odebrecht, respectivamente, US$ 433,5 mil e US$ 18,1 milhão.

“Além de transferir, sem causa econômica aparente, valores no exterior para contas controladas pelo grupo Petrópolis, a Odebrecht, para creditar montantes que seriam depois disponibilizados para pagamentos ilícitos, realizou operações subfaturadas com o grupo cervejeiro, como a ampliação de fábricas, a compra e venda de ações da empresa Electra Power Geração de Energia S/A, aportes de recursos para investimento em pedreira e contratos de compra, venda e aluguel de equipamentos”, diz o MPF.

Além disso, as investigações teriam apontado que o grupo Petrópolis disponibilizou pelo menos R$ 208 milhões em espécie à Odebrecht no Brasil, de junho de 2007 a fevereiro de 2011, e que o grupo, por meio das empresas Praiamar e Leyroz Caxias, foi utilizado pela Odebrecht para realizar, entre 2008 e 2014, pagamentos de propina disfarçada de doações eleitorais no total de R$ 121,5 milhões.

Repatriação bilionária

Ainda segundo o MFP, Walter Faria teria se utilizado do Regime Especial de Regularização Cambial e Tributária (RERCT), instituído em 2016 e que permitia trazer e declarar recursos do exterior sem comprovar sua origem, para regularizar R$ 1,39 bilhão depositado em contas de empresas offshore.

“Algumas dessas contas, direta ou indiretamente, receberam valores das contas controladas pela Odebrecht e por operadores ligados ao caso dos navios-sonda [Petrobras 10.000 e Vitória 10.000], indicando que ao menos significativa parte desses valores tem origem não comprovadamente lícita”, afirma o MPF.

Contas bancárias no exterior controladas por Faria teriam sido utilizadas, segundo o MPF, para o pagamento de propina no caso envolvendo a compra de dois navios-sonda, o Petrobras 10.000 e o Vitória 10.000.

De acordo com o MPF, entre setembro de 2006 e novembro de 2007, dois operadores encarregados de intermediar valores de propina a mando de funcionários públicos e agentes políticos creditaram US$ 3.433.103,00 em favor das contas bancárias titularizadas pelas offshores Headliner LTD. e Galpert Company S/A, cujo responsável era o controlador do grupo Petrópolis.

Operação Rock City

A operação de hoje leva o nome de Rock City (Cidade de Pedra, na tradução do inglês, em referência ao nome do grupo) e tem o apoio da Receita Federal. Além dos seis mandados de prisão, foram expedidos 33 mandados de busca e apreensão e ordem judicial de bloqueio de ativos financeiros dos investigados.

Os mandados são cumpridos em Boituva, Fernandópolis, Itu, Vinhedo, Piracicaba, Jacareí, Porto Feliz, Santa Fé do Sul, Santana do Parnaíba e São Paulo (SP), Cuiabá (MT), Cassilândia (MS), Petrópolis e Duque de Caxias (RJ) e Belo Horizonte (MG). Eles foram expedidos pela 13ª Vara Federal de Curitiba, e os presos serão levados para a Superintendência da PF em Curitiba.

Grupo Petrópolis

Procurado, o grupo Petrópolis disse em nota “que seus executivos já prestaram anteriormente todos os esclarecimentos sobre o assunto aos órgãos competentes” e “sempre esteve e continua à disposição das autoridades para o esclarecimento dos fatos”.

Não é a primeira vez que o grupo se vê envolvido em operações da PF. Em março, o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB) disse em depoimento ao juiz Marcelo Bretas que Faria pagou propina para a organização criminosa chefiada por ele e caixa dois para ao menos três campanhas eleitorais.

Antes disso, em 2005, Faria foi preso em Boituva, na operação Cevada, que apurava sonegação fiscal e formação de quadrilha. Em 2008, ele voltou a ser alvo, esta vez na operação Avalanche, em que o publicitário Marcos Valério e mais oito pessoas foram presos — na ocasião, o pedido de prisão de Faria foi negado pela Justiça. Ele teria recorrido a Marcos Valério, que era conselheiro da empresa Praiamar, para que o ajudasse a anular uma multa de R$ 104,5 milhões aplicada por fiscais da Fazenda paulista.

O grupo Petrópolis tem sete fábricas, duas delas instaladas em Boituva e Petrópolis, onde os policiais fazem buscas nesta manhã, e produz cervejas de marcas como Itaipava, Crystal e Petra.

Walter Faria está na lista de bilionários da revista Forbes, ocupando a 1008ª posição, com fortuna avaliada em US$ 3 bilhões.

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