A tensão é grande na Venezuela

O líder da oposição, Juan Guaidó, e o preso político Leopoldo López, que estava impedido de sair de casa, em prisão domiciliar, foram no início da manhã desta terça (30) até a base aérea de La Carlota, em Caracas, para anunciar o apoio de militares dissidentes na luta contra o regime do ditador Nicolás Maduro.

“Hoje soldados que são valentes vieram até aqui porque nosso Primeiro de Maio começou hoje. Estamos chamando as Forças Armadas para acabar com a usurpação hoje.” Guaidó deu as declarações por meio de um vídeo publicado em suas redes sociais, no qual aparece cercado de militares que o apoiam, armados, e ao lado de López.

O líder opositor Juan Guaidó, perto da base aérea La Carlota, em Caracas (Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

Também nas redes sociais, afirmou que está “dando início à fase final da Operação Liberdade”, para tirar Maduro do poder. A frase foi repetida por López em uma publicação no Twitter, na qual afirma ter sido “liberado por militares à ordem da Constituição e do presidente Guaidó”.

Para se diferenciarem dos militares que apoiam o regime, os dissidentes usam uma faixa azul no braço.

López estava em prisão domiciliar desde 6 de agosto de 2017, cumprindo pena de quase 14 anos, acusado de incitar a violência em protestos contra o governo em 2014.

O líder opositor Leopoldo López, perto da base aérea La Carlota, em Caracas (Foto: Carlos García Rawlins/Reuters)

Ambos os oposicionistas deixaram a base aérea de La Carlota porque o lugar passou a ser alvo de bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela Guarda Nacional, alinhada ao regime de Maduro. A assessoria do partido Voluntad Popular disse que Guaidó e López foram levados a um “lugar seguro”.

Segundo a agência de notícias Reuters, uma pessoa ouviu barulho de tiros numa concentração oposicionista próxima à base aérea. De acordo com essa testemunha, homens uniformizados que acompanhavam Guaidó trocaram disparos com agentes que apoiam Maduro. A assessoria do líder oposicionista, no entanto, nega que tenha havido tiros.

Com os distúrbios, a oposição passou a chamar a população para se concentrar em outro ponto de Caracas, o distribuidor Altamira, lugar tradicional das manifestações antichavistas e onde manifestantes foram assassinados em 2017.

O trânsito por volta das 8h (9h em Brasília) estava caótico. O Exército fechou diversas avenidas da cidade e há congestionamentos nas ruas. Os buzinaços não param, assim como os gritos de “Operação Liberdade” e o famoso “Maduro, vá à m…”, que já virou bordão da oposição.

Eram 6h (7h em Brasília) quando Caracas despertou de modo tenso. Após as declarações do líder oposicionista em frente à base aérea, o dia amanheceu com buzinaço e gritos. Também eram ouvidos panelaços.

Por meio das redes sociais, o ministro da Comunicação da Venezuela, Jorge Rodríguez, publicou que “estamos enfrentando e desafiando um reduzido número de efetivos militares traidores que se posicionaram para tentar um golpe de Estado”.

O ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino, porém, afirmou que há normalidade nos quartéis.

Nas redes sociais, Padrino publicou que “as Forças Armadas se mantêm firmes na defesa da Constituição e de suas autoridades legítimas”. “Todas as unidades militares das oito regiões de defesa integral reportam normalidade em seus quartéis e bases, sob mando de seus comandantes naturais.”

Em declaração na TV estatal VTV, na qual classificou a ação de Guaidó como um “espectáculo grotesco”, o dirigente chavista Diosdado Cabello convocou uma manifestação em frente ao palácio presidencial de Miraflores, em Caracas. Já o ministro das Indústrias, Tareck El Aissami, disse que o levante pró-Guaidó é “minúsculo, microscópico”.

Quase cem dias após o juramento do líder da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, como “presidente interino” da Venezuela, Caracas ainda vive entre a esperança de uma mudança que então parecia iminente e o aumento do desespero devido à degradação das condições de vida no país.

Ao chegar a Caracas, no fim da tarde desta segunda-feira (29), a reportagem da Folha pôde ver vários grupos e famílias tirando água do rio Guaire em baldes. Entre eles, estavam também os conhecidos como “mineradores”, geralmente adolescentes, apenas em calções ou bermudas, que se metem no meio do rio para buscar restos de alimento ou algo que possa ser útil.

Nas últimas semanas, a falta de água e os apagões elétricos que vão e vêm são o drama mais recente da crise venezuelana. Vários quarteirões da parte leste da cidade, onde estão os bairros de classe média e alta, estavam sem luz, um cenário que lembra o início da devastação ocorrida na cidade norte-americana de Detroit após a crise da queda da venda de automóveis.

A situação no aeroporto é desoladora. O mato cresce desordenadamente entre as pistas de aterrissagem. Quando a Folha chegou, havia apenas um avião grande de uma companhia internacional estacionado e algumas aeronaves menores de empresas privadas.

O antes charmoso aeroporto de Maiquetía, que servia de “hub” para europeus, norte-americanos e sul-americanos que se dirigiam ao Caribe, hoje é um espaço de desconfiança e delitos —houve até assassinato à queima-roupa numa fila de check-in.

Quem não tem um transporte combinado de antemão é logo cercado por gente que quer vender algum serviço: “Quer ligar para alguém? Um dólar a chamada pelo meu celular”, “Quer que te leve a algum lugar? Meu carro está aí fora, tem ar-condicionado, 20 dólares até o centro”.

Não há mais táxis oficiais no aeroporto. Na praça de alimentação, só dois restaurantes funcionam, vários estão de portas fechadas, não há sinal de Wi-Fi. É aconselhável manter um ar de certa tranquilidade. Oficiais armados da Guarda Nacional Bolivariana medem com o olhar os que chegam e suas bagagens.

Poucos restaurantes, no lado leste da cidade, estão abertos depois das 21h. Os pagamentos cada vez mais têm sido em dólar, devido à falta de moeda provocada pela hiperinflação.

A quarta-feira (1º) era considerada um dia chave nessa disputa de poder que a oposição começou naquele 23 de janeiro. Na noite desta segunda-feira, foram divulgados os mais de 20 pontos de concentração para o início da marcha de 1º de maio. Do lado da ditadura, também estava prevista uma marcha para a comemoração oficial do feriado.

A equipe de Guaidó chegou a chamar esse dia de “tomada de Miraflores”, esperando que o governo de Maduro, a esta altura, estaria tão debilitado que sucumbiria agora. O medo da oposição, porém, é que sua chama comece a se apagar. Ou seja: que, como em 2017, durante a polêmica campanha da Assembleia Constituinte, as pessoas se cansem de ir às convocações e acabe dando lugar à resignação.

​Com a antecipação dos protestos para esta terça-feira, não se sabe o que ocorrerá no Dia do Trabalhador.